na manhã desta segunda assisti novamente Peixe Grande (Big Fish, do Tim Burton).
eu sempre me emociono com esse filme. a vida de Edward Bloom e suas histórias. e também da relação com seu filho que, depois de crescido, não acredita mais nas fantásticas situações que seu pai lhe contou que viveu.
a emoção me vem porque me lembro de meu pai. que tem até alguma semelhança física com o ator que faz o Ed Bloom mais velho, apesar de meu pai ser bem mais novo, mesmo sendo já um avô.
a verdade é que devo muito ao meu pai. e não sei se alguma vez lhe disse isso.
sabe, nossa vida não foi fácil. talvez no começo houve mais prosperidade. mas, de certa forma, acabamos vitimados por essa sociedade egoísta. feita de pessoas egoístas.
meu pai, que é o primeiro Obede, porque sou júnior e este nosso nome é qualquer coisa de sensacional, sempre foi uma pessoa boa.
sempre foi uma pessoa que pensava nas outras pessoas. sempre foi, e ainda é, alguém que ajuda outras pessoas.
meu pai sempre acreditou na boa fé das pessoas.
e hoje ele crê que isso foi seu maior erro.
e não é verdade. o erro foi dessas pessoas que magoaram, traíram e tripudiaram de alguém que só lhes quis ajudar, de alguém que sempre ofereceu seu melhor trabalho, de alguém que fazia as coisas acontecer.
hoje, depois do filme, pensei em várias situações com meu pai.
lembrei de um aniversário que fomos, de um amiguinho da minha irmã, éramos pequenos e ficamos brincando de gincanas no McDonalds.
nos divertimos à beça, e quando as gincanas acabaram, eu e meu irmão fomos ficar perto de nossos pais, porque não conhecíamos os amigos da minha irmã. e meu pai me disse:
” – agora vai lá e fala pra eles: oi, meu nome é junior, qual o de vocês?”
e eu me lembro que senti que não ia fazer aquilo. ia passar vergonha. na época nem sabia o que era alguma coisa ser piegas, mas se soubesse, acharia isso. mas no fundo não era. era só uma tendência de complicar as coisas que foi nascendo em mim. não podia ser tão fácil criar novas amizades!
e meu pai não falou isso porque é o que reza na cartilha de bons pais. ele falou isso porque ele é assim. ele é gentil, ele não tem vergonha disso. e eu deveria ter seguido seu conselho, não pq eram crianças espetaculares os amiguinhos da minha irmã, mas sim porque era um excelente conselho.
e lembrar disso me fez perceber ainda mais claramente como meu pai é.
lembrei também dos momentos difíceis que se seguiram, de falta de dinheiro, de estresse, de brigas sem motivo.
lembrei do dia em que não tínhamos o que jantar, e meu pai fez algo que parecia cebola frita empanada. e era só aquilo que tínhamos. e ele estava triste por isso. e nós também.
lembro que no meio dessa pindaíba toda, ele levou seus filhos palmeirenses e um amiguinho são paulino para irem ao Palestra Itália pela primeira vez. porque ele nos ensinou a amar o Palmeiras. e mesmo sem dinheiro, ele deu um jeito.
chegando lá, eu e meu irmão estávamos cheios de expectativa e eu ouvi ele discutindo com o cara da bilheteria que não queria vender meia entradas para crianças! e ele contava o dinheiro, e depois nos olhou, estávamos um pouco distantes, eu o vi com o brilho nos olhos, querendo entrar logo. e eu sabia que ele estava bravo com o insensível do bilheteiro que não via um pai com dificuldades que só queria levar os filhos ao estádio pela primeira vez.
e mesmo assim nós entramos. e vencemos o jogo. e foi divertido. foi mágico.
mas passamos por isso. porque meu pai sempre trabalhou de alguma forma. sempre dava um jeito de não nos faltar o essencial.
chegou a trabalhar como pedreiro na casa de meus tios para ganhar uma grana. vender produtos. era sempre um sonho novo, um sonho em que ele acreditava. era um sonho que queria que sonhássemos com ele, porque seria a nossa redenção. seria o fim do sufoco. o de pagar uma conta esse mês, e outra não.
e ainda, no meio disso tudo, dessa dificuldade toda, ele tinha que lidar com três adolescentes, tinha que criá-los.
e o fez muito bem.
e hoje, vendo o filho de Ed Bloom carregando o pai de volta ao rio, vivendo a história de seu pai, pensei no meu. pensei nas coisas difíceis que ele passou, nas lutas que ainda seguem, e vejo como sua fé em Deus e seu bom coração nunca o deixaram desistir da gente. tenho a certeza que ele sempre fez tudo que podia para nos fazer feliz. e isso já é muito suficiente.
hoje, passando por meus momentos difíceis, e com vontade de jogar tudo pro alto, enxergo mais do que nunca o valor de ter um bom pai. e nem é aniversário dele, e nem dia dos pais, mas ele merece essa homenagem/declaração de amor, que poderia ter outras tantas mil histórias, só por existir e vai ganhar um abraço e um beijo de seu filho que passa mais tempo fora de casa que qualquer outra coisa.
ele talvez nunca chegue a ler isso, mas não deixo de ter vontade de lhe dizer esse eu te amo mais extenso.
e também um: obrigado, pai.
Tags:mundo, obede, pai, peixe grande


[tear drop]
Lindo, bro. E eu lembro de como vc ficou fliz de dar a ele um ingresso para uma corrida, não lembro qual. Ele realmente te criou muito bem.
Beijo!
e agora estou chorando, seu fedido! rsrs…
sabe, até eu tenho lembranças do seu pai, da sua casa e de como tudo era tão simples, mas acolhedor.
Vc cresceu em uma familia tão cheia de amor que nada pode abalar e isso contagia a todo mundo que tem o privilégio de conhecer o Mundo dos Obedes! rsrs
Realmente hermano, o Obede Senior te criou muito bem!
Obede,
seu pai tem que ler isso!
Perdi meu pai em 2002… Gostaria de ter feito uma homenagem desta para ele!
abração
Ageu
É, Obede, é muito bonito de sua parte reconhecer a importância do seu pai na sua vida, e creio que mais bonito ainda é ver que seu pai tem cumprido com o papel que lhe foi estabelecido.
Infelizmente, nem todas as pessoas tem essa mesma felicidade, porém, aprendemos de outras maneiras.
Parabéns pelo texto. Seria muito legal escrever algo assim sobre meu pai…quem sabe um dia…
beijos, amigo.
Obede (tomara que dessa vez dê certo),
Acabei caindo no seu blog porque fui olhar a sua foto nova do tuínter.
Adorei o texto. Chorei na hora que li. Acho Big Fish de uma beleza e delicadeza sem tamanho, adoro esse filme.
Seu pai deve ser tão especial quanto o filme.
Beijo
Bródi… que lindo isso! Vou imprimir e mandar pelo correio pro seu pai. Ele tem que ler isso!!! Preciso voltar a escrever e ler vcs tb…é sempre bom.