Mr. Blue Sky

mrbluesky
@spazio villa lobos

“o Senhor no céu te vê
e me pergunta por quê
eu te deixei escapar
‘não adiantou eu te mandar?
a coisa mais preciosa que fiz,
o amor..
coloquei pitadas de destino
de ciúme, calor e desatino
preparei um dos bons
mas você perdeu os tons..’

só pude lamentar
pedir perdão ao meu Senhor
pior não iria ficar
ó, incerta e culposa dor!

Ele se compadeceu,
conhece o filho
como um filme que já viu
‘Esperava um fim mais sutil
são tantos com quem me preocupar
e é você que não deixa trabalho faltar
sua vida poderia ser tão serena
e quem sabe.. será?
– O senhor? arrisquei
‘sim, mas não vou contar’
e é melhor nem perguntar
pois se há um plano
e é desde meu eu menino
de caminho eu chamo
ou melhor, de destino”

(500) mil dias comigo

500dias@myhead

“não sabia o que queria
se era chorar ou sorrir
ameacei um gargalho
seguido de um lacrimejar
como pode assim ver?

pensei que poderia
fazer mudar ou sumir
julguei um atalho
confusor de um penar
logo, posso te ter?

considerei que veria
amor chegar ou fugir
busquei o que valho
não muito a contar
devo me esquecer?

ponderei que teria
chance de par surgir
olhei e me calho
a te reconquistar
será que é pra ser?”

e o feriado?

metro@ metrô

enquanto subia a escada rolante
olhei com a mente pensante
aquele monte de gente
ninguém olhava pra mim
nem você
que podia estar ali
apesar de não poder
pois seu caminho é o oposto
do meu que é desgosto
e você foge de mim!

mas daria tudo para ser
você ali a me ver
e a me sorrir como me convidando
a segurar sua mão, beijar tua boca
te fazer gargalhar
mas não era você
não era ninguém

me ponho a imaginar
onde estava, e onde está
quem eu quero, que eu amo
em silêncio, eu te chamo
e sonho ali, bem acordado
de voltarmos as dúvidas bobas
“e o feriado?
que vamos fazer?
– qualquer coisa, meu amor
desde que seja com você!”

os piores sentimentos – III

luto

3. luto

“nada mais
sem sobras ou sombras
tanto faz, acabou
não há a culpa ou dor
não há sequer amor

choro da falta
tristeza que mata
ela não vai te ver
e não quer te ter
você é mais um
morto!

e o luto
e eu luto
mas não tem saída
é o fim de tudo
é o fim da vida

pois eu morri para ela
e não vivo pro mundo
e vou sempre sentir
esse amargo profundo

não haverá toques
cheiros e sorrisos
sequer troca de olhares
seus beijos e lembranças
seus calores tão precisos
nossa casa e as crianças

o presente se foi
e levou o futuro
me deixou nesse escuro
sem um pingo de luz
com a dor que seduz
o culpado mais duro
consigo mesmo!

pois não há razões pra dormir
não adianta sonhar
não há lugar pra fugir
ou buraco pra me enterrar

os piores sentimentos vem
e o viver é relativo
sinto o peso do luto
por alguém ainda vivo!”

os piores sentimentos – II

dor

2. dor

“o que se segue
é a dor
vem logo após a culpa
começa como torpor
e depois te estupra
a mente, o corpo, o orgulho
se sente… morto… bagulho

é algo que não se retira
se cura ou se desfaz
só faz doer
sua validade nunca expira
te fura e quer mais
só faz sofrer

os sintomas são complexos
começa no estômago e voa ao cérebro
te arranca pulmões e o gozo de viver
te corrói e coração e te faz morrer
ainda vivo!

a dor da perda, a dor da culpa
o sofrimento cego, mudo e que não escuta

é a sensação de ter feito alguém chorar
alguém que se ama e se quer
é machucar outro corpo que te queria bem
e cair absorto no colo de ninguém

pois quem te amava agora te teme
é a consequência da dor causada
e a justiça veio com sobrecarga
e a dor que ela sofreu, a ti é repassada

mas você nunca vai saber o que ela passou
vai sofrer sem entender o que ficou
vai sentir doer sem notar o que causou
e se dê por satisfeito!”

os piores sentimentos – I

culpa1. culpa

“não existe sentimento pior
do que aquele que diz culpa
então, me escuta
estou só nessa
meu coração confessa
minha mente luta
mas não há nada que eu possa fazer

eu vivo dias culpados
noites de angústia e mutilação
pensamentos se cortam
arrancam desculpas e motivação
mas mesmo assim não consigo
tenho de ter comigo
encarar meu erro e tentar viver

mas o que é vida sem você?
que foi embora por minha causa
e culpa
culpa a mim por tê-la perdido
por não ter sido o mínimo
na sinceridade
e me postado ao máximo
em falsidade

não sofrer injustiça
ser o responsável
mata qualquer um
principalmente a mim
que não vejo bom fim
nem fim algum
vejo alguém se remoendo
de vergonha e culpa
pego-me querendo
morrer sozinho e sem luta”

ó cárdio

simplesmente gênio. quero ser um centésimo dele.

AMAR

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drumonnd de Andrade