O fazer morrer

O choro é o primeiro ato.
Único e ímpar.
Vai ver é porque morrer é triste.
Ou deveria ser.
O que não se entende é que a primeira coisa que fazemos ao nascer é chorar por começarmos a morrer.
Pois tudo é morte, tudo é fazer morrer.
Mesmo que aos pouquinhos, em partes cruéis, dias monótonos de tão saudáveis, não se engane, você está morrendo.
Pode ser hoje, amanhã, daqui 50 anos.
Mas você está morrendo.

Aí você chora quando nasce, grita, esperneia mesmo, e te dão um tapa no pequeno traseiro. Uma forcinha para o fim inevitável.
Passa um tempo e você cresce e, veja você, continua morrendo.
O fazer morrer é incessante.
Ou melhor, só acaba quando termina.
Eu questiono a vida, pois ela é toda morte.
Não importa se você está tomando banho, curtindo uma festa ou apanhando na rua, está morrendo do mesmo jeito.
Todos estamos.

Então para que dar nota ao viver?
Porque viver é bom, apesar de ser só morrer.
O viver deveria ser o sair do útero de sua mãe.
Aquele preciso ato, pois depois é só morte.
Mórbido, eu sei.
Mas tudo é morbidez.
Enquanto digito esse texto, sinto-me morrer, um pouquinho a cada letra… a cada ponto.
É loucura pensar nisso, pois até quando paro de teclar para pensar na próxima palavra eu estou morrendo.
Eu não paro de morrer!
Deve ser uma doença.

(29/08/08)

Eu no aniversário

Neste momento eu já completei 35 anos. Oficialmente, eu chorei pela primeira vez às 5h50 desta mesma data em 1985, mas eu já era vivo, só não tinha nascido.

A vida aqui é esquisita e complexa. Não me faltam novidades, conselhos, ideias e sonhos. Também não faltam saudade, tristeza, apreensão e dúvida.

Busco o equilíbrio, mas me sinto bem. Triste, mas bem. Pelo menos não estou perdido. Não muito.

A vida apresenta possibilidades e eu vou sem pressa. Deveria ter? Talvez. Faço o meu tempo e não é de hoje que faço disso uma questão.

Sinto muito amor e muita capacidade de amar e isso me deixa feliz.

Vejo o carinho de quem me ama e não me prendo em quem não faz questão de mim. Tá tudo bem alguém não gostar de você.

Além disso, hoje penso muito mais em minhas palavras, sejam escritas ou faladas. Minha maturidade reside aí. E isso não é pouca coisa, apesar de ainda longe do suficiente. Seguirei.

Minha vida seria muito diferente se tudo que eu cheguei a imaginar tivesse virado realidade. E digo de coração que não sei se seria melhor. Ou pior.

Escuto melhor e analiso com mais ferramentas. Quero dar o bom conselho, ser o bom exemplo. Quero distribuir amor. Ser calmo e tranquilo, mas nunca tedioso. Quero ver o mundo e o vizinho, ser contido e grandioso. Quero que me vejam e me guiem, ser eu mesmo e ser o outro. Quero amar e ser amado, se possível ao mesmo tempo. Quero poupar e ser poupado, respeitar todo momento.

Quero ser feliz não só hoje, meu dia, mas sempre que possível ser parte de alguma alegria. E isso vai me bastar.

Obede Rocha Viana Junior

quando eu fecho os olhos, eu lembro.
de uma pessoa em especial.
eu.
recordo as noites mal dormidas, as palavras proferidas e não rebatidas.
a desconfiança. a repulsa. o afastamento.
eu lembro de tudo como se fosse ontem.
como se fosse hoje.
mas nunca como se fosse o amanhã.
porque eu também lembro do que eu fiz.
de como eu fiz: de cada dia de uma vez, de um passo de cada vez.
respirando sempre nos intervalos.
fazendo a minha e ficando na minha.
toda hora.
todo dia.
deu e ainda dá trabalho.
mas depois de anos de turbulência, eu consegui sair do piloto automático.
eu consegui deixar para trás tudo que eu não escolhia. tudo que me acompanhava sem ser minha companhia. tudo que me atrasava.
era muito.
era merecido? talvez.
era para sempre? jamais.
me sentia tão pouco. pequeno. inofensivo e ineficaz.
me sentia esquecido e desinteressante.
tudo isso por não acreditar.
em quem falava o contrário.
em quem me apoiava dizendo o necessário.
em quem sabia ouvir e aconselhar.
não se muda sozinho. não se cresce na solidão.
mesmo que eu conviva sempre só comigo,
eu soube ser meu amigo.
para ser amigo de vocês.
eu soube me amar.
para amar vocês.
e se hoje me sinto bem quisto, é porque foi conquista.
foi provar para mim mesmo o que eu sempre acreditei nos outros: é possível mudar.
é possível ser diferente.
é possível ser a beleza.
e o meu lema é gentileza.
e já não mais serei pequeno.
ou minúsculo.
Meu nome é Obede Rocha Viana Junior.
Fica à vontade porque eu tenho muita coisa para te contar.
E não vejo a hora de te escutar.

sobre coragem

abalou-se quando pensou
foi automático
no reflexo
mas quando viu
estava a desviar
do caminho
sem nexo
e parou
e voltou
pensar não tira pedaço
retomou seu espaço
lembrou do amor
do sexo
do sorriso e do abraço
do laço
e de tudo que só faz bem
e que vale a pena
e ficou
e pensou
e aprendeu que é assim
só vale assim
e vale
cada segundo
sonhar é tão bom
melhor que pensar
só perde para viver
e ser vivido também
seguimos
sem abalo
e fugimos além
pro nosso embalo
e abraço
e que a vida seja aí
amém

a vida é melhor devagar

o tempo sempre me foi precioso
mas eu insistia em fazê-lo correr
como se o hoje não valesse a pena
e o ontem eu não quisesse mais ver

o por vir do que nunca veio
o que se esperava era esperança
e assim corria sem fazer nota
aguardando ansioso uma mudança

mas no futuro não se vive
no passado não se mexe
e o presente é tudo que se tem

e pra quê acelerar?
eu quero sentir
eu quero sonhar
eu quero ver,
mas não só ver passar
eu quero contar
e cantar
eu quero ser
hoje e agora
sem voltar
sem pular
aqui e já
bem devagar
bem devagar

ressignificar

o processo inicial é basicamente nosso modo padrão de viver. a gente conhece, a gente vê, a gente sente, a gente vive e a gente define. seja pro bem ou pro mal. é quase instinto, e esse meu quase saiu só pela necessidade de não cravar nada que não seja 100% preciso.

o processo seguinte é mais difícil. uma vez tatuada essa impressão em nossa cabeça, essa definição mental de sentimento ou de ação, é complicado, tal qual o desenho real na pele, de se remover. a diferença é que a tecnologia facilita mais para o exterior. a pele muda, a cabeça, não.

pelo menos não com a velocidade que se faz necessária. mas não é bom ter convicções? claro. mas melhor ainda é estar em paz sem ser escravo de sua teimosia. do seu desejo. do nosso desejo. liberdade pra mim é isso. é poder mudar. é ressignificar.

dar um novo sentido é mais forte que apenas substituí-lo. um exemplo corriqueiro mas que parece certeiro: “não gosto mais dessa camisa azul, vou vestir a vermelha.” isso é substituir. “não gosto mais dessa camisa azul. e se eu recortar as mangas? colocar um bolso de outra cor? talvez um cachecol verde-marinho deixe um ar sofisticado”. isso é ressignificar.

(se não fizer sentido, alguém dá um grito. salvo sua presença esteja próxima, eu não irei ouvir, mas posso sentir de longe. acredite. ainda mais se o grito vier nos comentários.)

um amor inabalável e interminável, de uma década, vira uma sensação de ser papel direto na felicidade diária e futura. coisa boa. uma amizade que parecia vital, vira uma saudade que explica como é possível estar longe e ainda assim amar alguém. uma família quebrada, que parecia se colar sem conversar só para evitar o pior e hoje se encontra tão separada quanto o coração pode aguentar. a carreira que parecia planejada para entediar e enriquecer (com sorte!) e virou a busca por um ambiente de vivência com sentido, que me pague em tempo, esse bem tão precioso. uma crença que lhe tirava o sono na perseguição da culpa foi repelida por não me querer e reencontrada nos detalhes de quem viveu como você. amém.

e não é que essas ressignificações sejam coisas boas ou ruins. apenas diferentes das que existiam para que a gente lide melhor. ou você acompanha o desenvolvimento, a evolução, ou fica para trás. para as coisas boas, o desfrute é qualificado, e a gente não tem tempo a perder, muito menos amor para desperdiçar. ele está em falta.

para as coisas ruins, se há interesse em solucionar, outra visão é parte do que pode ser feito. ou então, vamos no provérbio chinês: o que não tem solução, solucionado está.

hoje penso nas coisas que não são mais. o saldo é positivo, porque preciso materializar a estatística apesar de imensurável. penso também nas coisas que ainda preciso ressignificar. as pequenas e as grandes. principalmente as grandes. e aceitar que tudo muda todo dia toda hora acalma.

talvez seja isso a paz de espírito.

talvez não.

não preciso estar certo. só feliz com as decisões que vou tomar.

dois em um

e com o passar das palavras e dias uma divisão se criou.

divisão que é soma, porque o dois é o um duplicado. o um, como se espera da ordem, veio antes, natural, nascido da intenção perene e tranquila de se fazer notar e notar o outro também. o um sempre dá seu melhor, é só assim que ele saber ser. mas desta feita ele caprichou e o reflexo era impossível de ignorar. logo o um virou dois. dois que é a soma de dois uns. uma força incomum. se o um cuida e não mede esforços, o dois faz isso em um outro patamar de entrega.

dois e um viviam em comunhão, dois em um.

mas com o passar das palavras e dias uma divisão se criou.

impedido de existir como um só, o dois se separou. mas não deixou de ser. e se confunde com o um. e se estranharam. porque o um tudo entende, o um tudo espera, o um tudo aceita, o um gosta de ser um. sabe que se o dois se for, vai continuar a existir. existe um sem dois, mas não dois sem um. e o dois chora e se irrita, e se frustra, e se sente ameaçado. o dois sabe que vai morrer. o um também sabe e resta a ele se enlutar pelo companheiro. sentir sua falta e inspiração e rezar para que outro dois nasça outro dia.