the flying heart

não irá sair como poema ou rimas que soam apenas na cabeça de quem lê.

o texto é descoberta. quase científica. e o drama é parte deste mundo, que é igual ao seu, só que diferente.

acontece que não se ignora uma epifania. uma ideia nova. mesmo que seja nova só para você ou para mim.

a alegoria é bonita. chega a emocionar. explicativa, se eu for bem otimista. hoje estou. mas só com isso, pois estou só e disso não se espera muita coisa.

daí que eu saí de uma sala. estava acompanhado de estranhos. a luz nos iluminava. o som nos entretinha. o relato é real. cinema é bacana.

nesta saída pensei com o coração. como não fazia há tempos. e ele me fez pensar em todos os outros. como eles se conectam e são um só, mesmo sendo cada um eles mesmos.

visualizei sua anatomia alegórica, um farfalhar de imponentes asas.

é claro que eles voam!

como se ama sem voar?

geralmente ele pousa sem entreveros, mas o legal mesmo é quando ele cai. fall. in. love. caídinhos. meio que sem saber se a pista está livre ou não.

ou melhor, se o novo ‘ninho’, porque é mais legal enxergá-lo como um pássaro do que como uma nave, o acolhe ou não.

eles são livres, sabe. os corações que voam. ou pelo menos nascem assim. começam com medo de tudo, voam para o colo de quem está perto.

depois ganham coragem e plumagem para voos mais longos, não conseguem parar em lugar algum. e para quê se o mundo é tão grande e há tanto a conhecer?

quando amadurecem, num sentido menos responsável e mais experimentado, começam a mudar forma de voar.

acostumados a voltar, já não querem mais este ponto final. fazem morada em outro peito.

e o vazio é notado em nós mesmos, mesmo que paradoxal, e ele só é esquecido quando um outro par de asas nos habita.

se o novo inquilino for o locador do seu coração, a felicidade se faz na morada.

já cantavam cássia e nando, “o meu coração é o seu lar!” (e de que me adianta tanta mobília se você não está comigo?)

mas, vamos falar sério, a vida real é mais complicada.

nosso coração voa longe, não volta, as vezes por dias, semanas, por anos, por uma década inteira.

seu espaço a preencher encontra moradores novos, mas como eles podem ficar lá se parte de você está em outro lugar?

e mais, se quem deveria ali estar sequer dá um rasante perto de você?

sorte que a mente amadurece também. essa caçadora.

ela sabe de tudo, vai ao resgate. demora, mas traz de volta o pobre coitado. quebrado. depenado. iludido. é hora de cuidar dele.

quem disse que ele deixa? danado!

meio band-aid na fuça e ele já quer voltar a saltar. sossega! fica fortinho, por favor. eu nunca te pedi nada.

cuidar dessa parte da gente que tem asas é difícil. quem gosta de ver passarinho na gaiola? ele nasceu para voar.

e que voe! mas volte.

só fique lá se o par vier para cá.

e fique aqui se não tiver onde pousar. está tudo bem. comprei móveis novos, tem até Heartflix (boa essa vai!). fica que dá para ser feliz.

vamos encontrar um novo ninho, sim.

agora vai lá tirar o lixo que talvez tenha visita em breve.

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sobre amor

Respondi com um sorriso.
Esquecido na tristeza.
Negado por um vacilo.
Alguns, pra ter franqueza.
Tentei, mas impreciso.
Assustei sem sutileza.

Disse que podia ser.
Antes de saber que não.
Morreu antes de nascer.
Acometido de uma situação:
Sem viver o prometido.
Imóvel na evolução.
Ofuscado pela razão.

a órbita que eu habito II

observo o obstáculo fingindo espetáculo,
pretendendo ser o que não é:
um corpo com propósito.
próprio de quem não sabe
o que sequer deveria saber.
só não quer.
só não vê.
e são tantos que me cercam,
de certo tontos de girar,
e tão fartos de falar
o óbvio que só eu não quero ver:
quem orbita nem sempre quer pousar.
pode buscar apenas a análise
da superfície e do ar.
checar a segurança do básico.
posso pisar e respirar?
mas as vezes não dá.
acontece de não ser.
o passeio é só passagem,
o fim ainda é parte da viagem.
sou planeta, na verdade.
sou quem atrai, ou quem repele?
sou desejo, ou sou saudade?

a órbita que eu habito I

pense no passo que você daria no espaço.
esse lugar amplo, escuro e vazio,
mas cheio de possibilidades.
você viaja e vigia e sem perceber encontra.
disfarça e faz graça.
o universo é imenso, amiguinho.
percorre e se atrai.
envolve e desfaz.
trilha por entre cometas e planetas,
e se encaixa num sistema.
às vezes, só lá.
muitas vezes, só aqui.
cada brilho chama a atenção.
seja por curiosidade, seja por devoção.
e a gente segue, explora.
não falta opção de pouso.
me sobra área de escape.
tem quem prefira passear,
ver os astros sem saber
o que se passa ao tocar.
eu já quero a gravidade.
me prender por opção.
ver os anéis e furacões,
suas matas e paixões.
sou astronauta.
sou quem passa, ou sou quem coloniza?
sou a morada, ou a partida?

desajuste

eu não sei onde atrasa
como ajusta
se dá para fazer
o tempo que se busca
a hora que se quer
parece ainda mais confusa
quando se vê ela passar

a história se repete
porque não sei mais onde estou
eu sei o que você pede
só posso dar o que sobrou
de quem já não é mais
quem costumava ser
e isso é um baita de um azar

pareço determinado a me deslocar
quando minha linha temporal começou a tocar,
trombaram na vitrola
e me fizeram pular
o que deveria ser hoje foi ontem
e o que foi ontem podia acontecer agora
e o que seria futuro nunca será

será?

 

tudo é mais lento que o meu pensamento

here we are. again

a fonte que mais nos preenche está inundada de incertezas. incerteza tal que se alarma pela previsão. previsão que é feita automaticamente, sem pedir licença. e não precisa mesmo de licença para sonhar, só nos faltava essa.

quando algo me ocorre, eu construo. eu crio o caminho. pavimento a ideia e o destino se forma. será assim. mas é claro que não é. meu tempo de absorção é breve demais para gerar precisão. mas a hipótese pipoca como se tivesse vida própria. e se tiver?

e se cada vislumbre de situação se materializasse em outra dimensão só para viver até não poder mais? isso está ficando ficcional demais. quiçá, até científico.

quando eu cantei o verso ‘o que fazer do meu amor’, recebi um olhar admirado e emocionado. talvez aquele pensamento previa um fim infeliz. talvez já se sabia. mas tivemos que esperar. e do tempo ninguém escapa.

o hoje parece fazer menos sentido do que a imagem de carinho captada à época. tudo bem. a gente vive para reinterpretar tudo mesmo. para buscar novo sentido, para postular novos feitos.

seguir esse mapa criado na nossa cabeça e lidar com menos percalços é o desejo. muito mais pelo cansaço dos caminhos perdidos e das vias interditadas. aí a gente se pega desejando: “podia ser desse jeitinho, né?”. dureza.

além disso, mas não menor que isso, tem a pluralidade. mapas diferentes. estradas novas. estradas antigas. ruas desconhecidas. vielas-atalho que mais desviam do que ajudam. e a gente se pega culpado por não ter uma rota definida, até mesmo por não querê-la.

e a culpa, cara. caralho. a culpa me corrói desde sempre. criação cristã é foda. (perdoa, JC, mas seus fãs por aqui são ruins de criar gente, viu). e ela se espalha três vezes mais rápida que a confiança, que o amor próprio, alimentando a decepção e a autopiedade. ter dó de si mesmo é das coisas mais tristes que o ser humano pode sentir, bicho.

aí você se sente a pior das pessoas, tendo que conviver com as pressões sociais, que existem sim, de você ser ao menos apresentável e se manter interessante. afinal, tem uma história que você carrega ao ser você. e a gente morre de medo de perder isso. normal. morrer faz parte, ser esquecido é o verdadeiro pesadelo.

e você olha para aquela tela de TV (eu uso quantas metáforas eu quiser, saca?) com uns 180 canais passando ao mesmo tempo. não consegue focar em nenhum, claro. e pensa: “seria bom alguém tirar da tomada e me levar para passear. seria bem bom.”

Navegar pode ser preciso

Quando se passa tanto tempo assim sem dar as caras, é preciso alongamento. Mesmo que curto. Pois este momento estava sendo adiado. Este agora. E mesmo enquanto me empenho, me controlo. Julgo seguro me segurar.

Estou juntando muitas palavras que se misturaram na ausência de local para se organizarem. As deixei soltas, talvez temendo o que a ordem poderia causar. O inverso, provavelmente.

Ainda procuro a metáfora perfeita, já não me satisfaz falar sem mistério. Preciso ser decifrado. Mas meu enigma é de se interpretar, não produz solução única e conclusiva. É um ser vivo.

Um criminoso, posso assim definir deixando um rastro de polêmica e suspense. Mas, por falta de vocação, um malfeitor sem sucesso. Só culpa. Tornando o crime pior para quem o cometeu do que para a própria vítima. (Os que acreditam em consciência defendem que é sempre assim)

Se joguei minha parte às profundezas, no intuito de não mais revê-la ou, pior, vivê-la, foi por boa intenção. O empecilho já não podia viver sob meu teto ou, melhor, capitanear o meu barco. Veio o motim. E dá-lhe prancha.

Tudo já parecia errado desde então. O afastado sorria de dó. “O capitão só afunda com o navio”. O golpe seria em vão. E foi.

E agora é ele quem fala. Sem vingança ou rancor. Os marujos traidores não serão punidos. Verão a grandeza de quem nunca morreu, mesmo com catástrofes em sua coleção.

Resta saber se o fundo do mar é capaz de ensinar a guiar. A tempestade dorme quieta, mas acorda devastadora.