talvez

talvez seja muito
o pedido que eu faço
pra ser como nunca é
sem medir tempo e espaço

talvez sem importância
seja a palavra escolhida
com carinho pensada
pra passar despercebida

talvez eu sinta falta
do que apenas desejo ter
desconhecido e inviável
me vem a posse e não o ser

talvez seja caminho
não o destino que eu traço
já que não é falta de fé
devo sofrer outro embaraço

talvez sem a distância
dá pra ter uma outra vida
amorosa e confortável
que não quer ser esquecida

talvez eu queira minha vez
de ser querido igual você
busco tanto ser sentido
e só me falta o que não se vê

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lua de sangue

Captura de Tela 2018-07-27 às 17.15.53
hoje o dia é especial.
nem sei explicar o fenômeno.
muito menos sua especialidade.
de qualquer forma, comecei o dia ouvindo um áudio que explicava que o eclipse lunar de hoje era muito raro.
ainda mais combinado da famigerada lua de sangue.
pra entender como isso acontece é só dar um google. tá fácil de achar.
a questão é sobre o áudio e como fiquei pensando nele o dia todo.
ele dizia que a carga de energia era muito forte durante o evento importante de hoje. algo, digamos, marcante.
e mais: poderoso.
a mensagem era simples: “foque naquilo que você quer conquistar, foque nos seus desejos. pense positivo sobre eles. dê força para que eles se cumpram”.
mas aí me veio: quais desejos?
o que, afinal, eu quero?
e outra coisa, ainda mais importante, o que eu deveria pedir?
já falei sobre isso aqui no mundo: o desejo é importante.
mas não se pode ser refém dele.
não seja escravo de sua vontade.
sua liberdade depende disso.
e a verdade é que sei o que pedir.
fecho os olhos e vejo.
penso e desisto.
avalio e escolho outras coisas.
resolver outras questões.
decido desejar saber.
de mim.
abençoa, lua de sangue.
se faça verdade.

A órbita que eu habito III

finalmente, o que fazia falta se fechou.
o fim que não conclui,
mas responde o que não se perguntou.
se era um, me descobri maior.
e me vi só, depois mais e melhor.
tudo o que me afeta faz parte
por vezes azar, às vezes sorte.
e que assim seja.
por mais que não se veja,
no momento que se escreve,
a beleza de se visitar e ser hospedado.
o que se almeja,
e que é fácil e leve,
o amor que não é negado.
a complexidade é infinita.
são estrelas, astros e poeira,
são planetas, rastros e cometas.
e vão e ficam sem fazer sujeira.
sou sistema solar, afinal.
sou vários e sou contente,
um mundo igual o seu, só que diferente.

the flying heart

não irá sair como poema ou rimas que soam apenas na cabeça de quem lê.

o texto é descoberta. quase científica. e o drama é parte deste mundo, que é igual ao seu, só que diferente.

acontece que não se ignora uma epifania. uma ideia nova. mesmo que seja nova só para você ou para mim.

a alegoria é bonita. chega a emocionar. explicativa, se eu for bem otimista. hoje estou. mas só com isso, pois estou só e disso não se espera muita coisa.

daí que eu saí de uma sala. estava acompanhado de estranhos. a luz nos iluminava. o som nos entretinha. o relato é real. cinema é bacana.

nesta saída pensei com o coração. como não fazia há tempos. e ele me fez pensar em todos os outros. como eles se conectam e são um só, mesmo sendo cada um eles mesmos.

visualizei sua anatomia alegórica, um farfalhar de imponentes asas.

é claro que eles voam!

como se ama sem voar?

geralmente ele pousa sem entreveros, mas o legal mesmo é quando ele cai. fall. in. love. caídinhos. meio que sem saber se a pista está livre ou não.

ou melhor, se o novo ‘ninho’, porque é mais legal enxergá-lo como um pássaro do que como uma nave, o acolhe ou não.

eles são livres, sabe. os corações que voam. ou pelo menos nascem assim. começam com medo de tudo, voam para o colo de quem está perto.

depois ganham coragem e plumagem para voos mais longos, não conseguem parar em lugar algum. e para quê se o mundo é tão grande e há tanto a conhecer?

quando amadurecem, num sentido menos responsável e mais experimentado, começam a mudar forma de voar.

acostumados a voltar, já não querem mais este ponto final. fazem morada em outro peito.

e o vazio é notado em nós mesmos, mesmo que paradoxal, e ele só é esquecido quando um outro par de asas nos habita.

se o novo inquilino for o locador do seu coração, a felicidade se faz na morada.

já cantavam cássia e nando, “o meu coração é o seu lar!” (e de que me adianta tanta mobília se você não está comigo?)

mas, vamos falar sério, a vida real é mais complicada.

nosso coração voa longe, não volta, as vezes por dias, semanas, por anos, por uma década inteira.

seu espaço a preencher encontra moradores novos, mas como eles podem ficar lá se parte de você está em outro lugar?

e mais, se quem deveria ali estar sequer dá um rasante perto de você?

sorte que a mente amadurece também. essa caçadora.

ela sabe de tudo, vai ao resgate. demora, mas traz de volta o pobre coitado. quebrado. depenado. iludido. é hora de cuidar dele.

quem disse que ele deixa? danado!

meio band-aid na fuça e ele já quer voltar a saltar. sossega! fica fortinho, por favor. eu nunca te pedi nada.

cuidar dessa parte da gente que tem asas é difícil. quem gosta de ver passarinho na gaiola? ele nasceu para voar.

e que voe! mas volte.

só fique lá se o par vier para cá.

e fique aqui se não tiver onde pousar. está tudo bem. comprei móveis novos, tem até Heartflix (boa essa vai!). fica que dá para ser feliz.

vamos encontrar um novo ninho, sim.

agora vai lá tirar o lixo que talvez tenha visita em breve.

sobre amor

Respondi com um sorriso.
Esquecido na tristeza.
Negado por um vacilo.
Alguns, pra ter franqueza.
Tentei, mas impreciso.
Assustei sem sutileza.

Disse que podia ser.
Antes de saber que não.
Morreu antes de nascer.
Acometido de uma situação:
Sem viver o prometido.
Imóvel na evolução.
Ofuscado pela razão.

a órbita que eu habito II

observo o obstáculo fingindo espetáculo,
pretendendo ser o que não é:
um corpo com propósito.
próprio de quem não sabe
o que sequer deveria saber.
só não quer.
só não vê.
e são tantos que me cercam,
de certo tontos de girar,
e tão fartos de falar
o óbvio que só eu não quero ver:
quem orbita nem sempre quer pousar.
pode buscar apenas a análise
da superfície e do ar.
checar a segurança do básico.
posso pisar e respirar?
mas as vezes não dá.
acontece de não ser.
o passeio é só passagem,
o fim ainda é parte da viagem.
sou planeta, na verdade.
sou quem atrai, ou quem repele?
sou desejo, ou sou saudade?

a órbita que eu habito I

pense no passo que você daria no espaço.
esse lugar amplo, escuro e vazio,
mas cheio de possibilidades.
você viaja e vigia e sem perceber encontra.
disfarça e faz graça.
o universo é imenso, amiguinho.
percorre e se atrai.
envolve e desfaz.
trilha por entre cometas e planetas,
e se encaixa num sistema.
às vezes, só lá.
muitas vezes, só aqui.
cada brilho chama a atenção.
seja por curiosidade, seja por devoção.
e a gente segue, explora.
não falta opção de pouso.
me sobra área de escape.
tem quem prefira passear,
ver os astros sem saber
o que se passa ao tocar.
eu já quero a gravidade.
me prender por opção.
ver os anéis e furacões,
suas matas e paixões.
sou astronauta.
sou quem passa, ou sou quem coloniza?
sou a morada, ou a partida?